Há 70 anos, em 19 de maio de 1952, João Guimarães Rosa partiu com uma comitiva de vaqueiros para conduzir uma boiada por um trecho da região de Minas Gerais, que depois ele chamou de grande sertão, dando nome ao livro "Grande Sertão: Veredas".

O Globo Rural refez o trajeto 70 anos depois. Foram 9 dias de viagem, com pernoites em 9 fazendas.

Durante a jornada, o escritor questionava tudo o que via: quais eram as árvores, os pássaros, entre outras perguntas. Cada resposta era anotada em uma caderneta pendurada em seu pescoço por um cordão.

As anotações da viagem viraram um documento sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Depois de escrito, todo o conteúdo era datilografado, grifado e estudado com indicações das histórias em que entraria.

Durante o percurso, apenas em uma noite Guimarães Rosa teve o luxo de dormir em um quarto. Em suas anotações, ele menciona que se deitou em currais e até em uma bancada de curar rapadura.

A hospedagem aconteceu no oitavo dia. No local, ele se revelou médico para os anfitriões, após diagnosticar sarampo em um dos moradores, que se curou dias depois de ser medicado.

Na medicina, Guimarães Rosa trabalhou com Juscelino Kubitschek, que, décadas depois, como presidente, o promoveu a embaixador, porém ele morreu antes de assumir o cargo.

Grande Sertão: Eucaliptos

Desde que Guimarães Rosa passou pelo sertão, muita coisa mudou. O Cerrado característico que ele presenciou está menor. Há, por exemplo, uma floresta de eucaliptos no meio da rota.

O sol é filtrado pelas folhas dessa espécie que veio da Austrália e se espalha por cerca de 5 milhões de hectares no Brasil, 1,5 milhão, em Minas Gerais.

O lugar de onde a boiada partiu 7 décadas atrás, hoje, tem musgo pela parede e a janela quebrada. Mas, no vilarejo mais próximo, onde a comitiva pernoitou no terceiro dia, ocorreu o oposto, transformando-se em um povoado urbanizado.

A marca de Guimarães Rosa

Na Associação dos Amigos da Cultura do Sertão, a professora aposentada Fátima Coelho comenta que aparecer na obra de Guimarães Rosa despertou o orgulho local, invertendo a autoestima, em que até então o sertão era o lugar de onde se ia embora, pois não tinha nada.

O caminho por onde Guimarães Rosa passou, hoje, é usado para uma maratona. Os atletas devem o percorrer em até 60 horas, sem dormir. O recorde de tempo é de 34 horas. A prova pelos Caminhos do Rosa já faz parte do calendário nacional de eventos esportivos e conta com a participação de 23 estados e 7 países.

No circuito, há também competições de ciclismo e natação. E a sede da fazenda foi transformada em uma pousada temática.

Com patrocínio dos Amigos do Museu, as crianças começam a ler obras do autor a partir dos 8 anos. Há também as bordadeiras, que retratam personagens e cenas dos livros do escritor.

Entre as bordadeiras do município de Andrequicé (MG), uma assina como Maria Nardi, filha mais velha do Manuelzão, que liderava a comitiva que Guimarães Rosa acompanhou.

No Memorial Manuelzão, acontecem rodas de leitura com as crianças de Andrequicé. É por meio do memorial também que há um intenso bailado, atração nas festas da região. É uma forma de homenagear o escritor e contar a história real com toques de invenção.

A professora Lidijane narra que, uma vez, uma cigana leu a mão do escritor e disse que quando ele conseguisse a maior conquista de sua vida, ele morreria.

Por superstição, ele teria adiado por quatro anos a posse na Academia Brasileira de Letras. Assumiu o cargo em 19 de novembro de 1977 e morreu de infarto fulminante três dias depois.

Saiba mais na reportagem completa no vídeo acima.

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