‘Ganho R$ 2,2 mil e devo R$ 16 mil por mês

‘Ganho R$ 2,2 mil e devo R$ 16 mil por mês’ – como começar a organizar suas dívidas

Ana Paula Araújo é técnica em enfermagem em Fortaleza, Ceará. O dia de trabalho começa cedinho, às 7h horas, e, dependendo do sufoco da família no mês, ele dura até as 7h do dia seguinte. O salário é de R$ 1.600 e ela precisa sustentar a casa, o filho de um ano e o marido, que está desempregado.

“Eu tô esgotada. Tô nível assim: meu salário, com extras, fica na faixa de uns R$ 2 mil a R$ 2,5 mil. Mas minhas contas ficam R$ 16 mil no mês”, ela desabafa.

Ela cresceu ouvindo a mãe dizer que o nome é tudo que pobre tem. Apegada ao seu, viu as dívidas em cartões e empréstimos subirem sem pedir socorro e passarem de R$ 80 mil, entre 11 cartões de crédito e um consignado no nome do sogro.

E a Ana não tem luxo: os gastos são compras para a casa e o bebê e favores que fazia para a irmã e o cunhado, além dos juros por atraso nos pagamentos.

Para pagar as faturas, ela suou: fez plantões de 24h durante folgas do hospital, vendeu biquínis, tirou o filho da creche, vendeu algumas coisas de casa, raspou a reserva de emergência, pegou um empréstimo e, mesmo assim, não conseguiu evitar a bola de neve.

Sem saber o que fazer e sem ter de onde mais tirar, Ana resolveu pedir ajuda. O g1 a acompanhou nesta trajetória de planejamento financeiro com a especialista Aline Soaper, do Rio de Janeiro. Durante três meses, nos encontramos em reuniões online. O programa da Aline funciona em cinco etapas:

  • Alinhamento de métodos: identifica o problema financeiro do cliente;
  • Levantamento das informações: aqui, o cliente levanta todas as dívidas e quanto tem para pagá-las;
  • Estratégias de pagamento: nesta, ela vai traçar a estratégia de pagamentos;
  • Negociação com os credores (quando o cliente está superendividado);
  • Reorganização financeira: com a dívida resolvida, começa a reeducação.
  • 1º encontro – como a Ana começou a maratona

    1 de 2 Ana Paula Araújo é técnica em enfermagem e tem 32 anos — Foto: Arquivo pessoal

    Ana Paula Araújo é técnica em enfermagem e tem 32 anos — Foto: Arquivo pessoal

    Ana nunca soube dizer não. Nem para os outros nem para si mesma. Então, para tudo o que precisava dentro de casa, ela passava o cartão. E, no mês seguinte, não tinha como arcar com as faturas. Então ela atrasava uma, fazia bico e dobrava turno no trabalho para pagar com juros depois do vencimento.

    Além disso, por ser a única pessoa com contrato CLT e o nome limpo da família, costumava emprestar o cartão para os parentes. A irmã tem uma loja de biquínis e fazia compras altas no cartão da Ana. Mas, como nem sempre o negócio próprio vai bem, muitas vezes ela não tinha dinheiro para pagar e conta acumulava.

    No meio disso tudo, o marido da perdeu o emprego e aí tudo enrolou de vez. "A renda está só em cima das minhas costas. Já tirei até meu filho da creche porque não estava conseguindo arcar. Então ele fica com meu marido em casa enquanto eu estou trabalhando", conta.

    E o que ficou resolvido na primeira sessão? A Aline deu essas tarefas:

    2º – Depois da lição de casa, o susto

    2 de 2 As dívidas da Ana Paula passaram de R$ 80 mil — Foto: Arquivo pessoal/Ana Paula Araújo

    As dívidas da Ana Paula passaram de R$ 80 mil — Foto: Arquivo pessoal/Ana Paula Araújo

    Ana nunca tinha feito a soma das dívidas. Ela morria de medo de ver quanto ia dar. Mas pra voltar pra segunda reunião, precisou encarar. Quando fez a lista, levou o susto: mais de R$ 80 mil. E viu que as despesas fixas, já contando com o pagamento do empréstimo, davam R$ 3 mil por mês.

    A família não conseguiria bancar tudo e ainda pagar todas as parcelas. Então, a Aline orientou a Ana a negociar com os bancos para reduzir os juros e ver um jeito da dívida caber no orçamento dela.

    3º – Choro, desespero e alívio

    No terceiro encontro, elas se reuniram para decidir uma estratégia de pagamento. E a Ana estava bem nervosa.

    “Chegar em casa e pensar que a qualquer momento pode não ter comida para o meu filho é ruim demais. Eu preciso dormir. Gente, eu tô perdendo peso, sem energia para trabalhar, cansada. Não consigo nem mais ficar com meu filho, até no trabalho está exaustivo.”

    Ela chorou, mas trouxe pontos positivos. De uma reunião para outra, se passaram três semanas. Nesse meio tempo, ela colocou o marido num app de entregas e, quando ela está no contraturno, ele consegue pegar uns servicinhos. Com isso, a renda da família já aumentou.

    E aí, a Aline chegou com o plano: entrar com um processo por superendividamento. A Ana precisaria mandar todos os contratos para o contador da empresa da Aline calcular o que era dívida e o que era juro e aí negociar de fato com os bancos.

    Como ela parou de pagar as faturas, o nome ficou sujo. E ela também cancelou os cartões e deixou só um com um limite baixinho para algum caso de urgência do filho.

    Agora, faz dois meses que as reuniões acabaram e a documentação da Ana está sendo analisada pelo contador. Ela também já fez uma entrevista com a advogada para saber todos os trâmites do processo.

    Três meses depois, o que mudou?

    Depois de dois meses do terceiro encontro, liguei para a Ana pra saber como anda tudo. E ela me fez uma lista das suas conquistas:

    “Estou bem mais calma, mais confiante de que vou conseguir resolver. Não vai ser uma coisa rápida. A Aline me explicou que vai demorar, mas pelo menos eu sei que um dia meu nome vai estar limpo de novo.”

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