O consumo das famílias mostra que os brasileiros já postergam determinadas opções não essenciais de compras em meio a um cenário de juros e inflação altos.

O Monitor do PIB, divulgado nesta segunda-feira (18) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), mostrou que a atividade econômica do país recuou 0,8% em maio, na comparação com abril, considerando os ajustes sazonais.

Nessa comparação, o consumo das famílias caiu 2,1% em maio. Na comparação interanual, cresceu 4,7% em maio e 5,8% no trimestre móvel encerrado em maio.

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Um olhar por dentro dos dados de consumo na comparação com o mês imediatamente anterior mostra que a queda vem sendo, mês a mês, intensificada pelos itens de menor necessidade e que dependem mais de formas de financiamento.

O consumo de bens duráveis, segundo os dados do FGV/Ibre, recuou 1,7% em abril e 0,5% em maio. Já os semiduráveis subiram 3,3% em abril, mas recuaram 1,2% em maio. Os não duráveis, que têm entre eles os alimentos in natura — gêneros de primeira necessidade — subiram 0,7% em abril e 1% em maio. Já o consumo de serviços avançou 0,8% em abril e ficou estável em maio.

Juliana Trece, economista e pesquisadora do FGV Ibre, lembra que o consumo das famílias como um todo vinha crescendo há três meses, acompanhando inclusive o comportamento do PIB como um todo dentro do Monitor da FGV. Ela lembra que os consumidores tendem a postergar opções de consumo em um cenário de juros e inflação altos. Trece ressalta que, por enquanto, os estímulos fiscais não se mostram suficientes para elevar de forma consistente o consumo.

“Quando olhamos os dados abertos, o consumo de duráveis, que sofre mais impacto dos juros, caiu em abril e maio. Isso mostra uma mudança de comportamento do consumidor, que posterga a compra”, diz Trece.

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Segundo ela, os não duráveis, mais essenciais, é que ainda não perderam força. “O consumo como um todo caiu, mas é interessante olhar por dentro, porque há diferenças [entre os setores de consumo], o que é reflexo dos juros”, afirma.

A economista acrescenta que o consumo de serviços, que ficou zerado em maio, foi segurado pelo processo de abertura no pós-pandemia, mas destaca que esse efeito tende a ser atenuado no segundo semestre.

Para a segunda parte do ano, inclusive, Trece afirma que a tendência é de uma economia mais fraca, fruto não apenas dos juros altos, mas também de um cenário de provável retração da economia global. Esse cenário tem como pano de fundo uma elevação da inflação em várias economias, o que tem levado os bancos centrais a uma política contracionista de alta de juros.

“A gente sabe que no segundo semestre a economia vai ter dificuldade de crescer e o consumo vai ser o motor disso [dessa dificuldade de crescimento]”, ressalta a economista.

Em termos de cenário global, Trece destaca que o Brasil pode sofrer os efeitos principalmente via exportação de commodities e frisa que na China, principal destino das vendas brasileiras, há uma série de informações sobre lockdowns, comprometendo a atividade local.

Esse comportamento internacional já afetou, em maio, a indústria brasileira, que voltou a recuar, puxada pelo tombo de 7,3% da indústria extrativa frente a abril. Trece destaca que esse recuo do setor extrativo aconteceu principalmente devido ao minério de ferro e ao petróleo, cujas cotações já sofrem com a expectativa de recessão global. Nos outros setores industriais, a transformação caiu 0,7% e a construção avançou 1,6% em maio.

Nesse sentido, a expectativa para o segundo semestre é negativa, com inflação alta, juros ascendentes e uma baixa demanda global. “Não tem muito o que fazer no cenário interno. Tá meio que amarrado com toda a conjuntura aqui e lá fora”, diz Trece.

Na comparação interanual, o Monitor do PIB mostrou alta de 4,4% em maio e 3,7% no trimestre móvel encerrado em maio.

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